FOTOGRAFAR EM “CÂMARA-LENTA”
Texto e Fotografia: Rui Guerra
Introdução
Sempre
que se pensa em fotografia, subaquática ou não, esta é encarada sob o ponto de
vista dum conjunto de conceitos mais ou menos verdadeiros e mais ou menos
enraizados. De entre eles há um que assume uma importância preponderante: a
nitidez da imagem.
Esta nitidez pode ser entendida sob vários aspectos e depende dum conjunto de factores que vão desde o equipamento utilizado à técnica empregue, passando pelas características associadas ao próprio sujeito, como sejam a sua dimensão, distância, velocidade e direcção do movimento. Todas estas questões estão interrelacionadas e não podem ser encaradas isoladamente.
Mas,
até que ponto é que uma imagem tem que apresentar uma nitidez e recorte
superiores? Até que ponto é que uma fotografia deve ser uma representação fiel
da realidade? É sabido que muitas vezes se torna difícil captar o meio que nos
rodeia em toda a sua essência, e por isso recorre-se a técnicas e/ou equipamento
que permitem fotografar mais a interpretação que o fotógrafo faz da realidade do
que a realidade em si.
De entre as limitações que uma fotografia pode apresentar, como imagem estática que é, a mais notória é sem dúvida a sua incapacidade de “gravar” o movimento de forma a transmitir o carácter fluído e em constante mutação do meio que nos envolve. Ou não será assim? Será que um dia conseguiremos fotografar a relação espaço-tempo, através do movimento que apresentam os seres à nossa volta? A resposta é “Sim!”. Na prática milhares de fotógrafos em todo o mundo já o fazem há muito permitindo que o movimento dos sujeitos fique impressionado na película ou sensor.
Estes movimentos têm a função primordial de melhor transmitir a experiência do fotógrafo no local ou de ser simplesmente um elemento criativo que dá resposta à procura de novos horizontes no campo de fotografia.
Técnica
Quer se tente fotografar um cardume de pequenos peixes ou um grande leão-marinho isolado, a técnica e equipamento utilizado tem que estar de acordo com os objectivos para a imagem em causa. Se bem que tudo seja possível neste domínio há geralmente duas situações que tendem a funcionar bastante bem. Uma delas é quando se tenda imobilizar parte da imagem permitindo que a outra parte fique com movimento, arrastada, mas tentando-se sempre manter um certo elo com a realidade observada. Como exemplos pode-se pensar num peixe que se segue com a câmara (panning) de modo a ficar relativamente nítido enquanto que o fundo fica completamente arrastado numa amálgama de riscos, padrões e cores. Num outro extremo pode-se tentar criar uma imagem puramente criativa em que a dominante é o próprio movimento em si e não o sujeito que procuramos fotografar. Neste caso tanto a composição da imagem como o controlo da cor ou outros parâmetros são muito mais difíceis de controlar. É aconselhável recorrer-se ao “bracketing”, isto é, à variação para mais e para menos de alguns parâmetros da fotografia (p.ex. da velocidade ou do grau de deslocação da máquina) de forma a aumentar as probabilidades de se obter o efeito pretendido. Como ex. pode-se pensar numa situação em que a máquina permanece imóvel permitindo ao motivo desenhar um rasto de movimento mais ou menos estilizado. E porque não “imprimir” movimento a um sujeito estático através da deslocação propositada da máquina?
Neste
tipo de fotografia a utilização dum flash não é indispensável. É possível captar
imagens magníficas só com luz ambiente, tanto mais que, dado o carácter
instantâneo da luz artificial, esta só pode ser utilizada como complemento da
primeira. Assim sendo, é fundamental permitir que a luz natural desempenhe o
papel principal. O seu controlo e medição representam meio caminho andado para o
sucesso. O outro meio tem a ver com a taxa de deslocação, relativo ao movimento
angular do motivo (ou da máquina) relativamente à área abrangida pelo
enquadramento (ver também o artigo “ABERTURA versus VELOCIDADE”).
Como ponto de partida pode-se seleccionar uma abertura bastante pequena como f/16 ou até f/22 deixando depois que o fotómetro da máquina defina a velocidade a utilizar. Esta deverá ser sempre bastante lenta, chegando-se a utilizar velocidades de 1 ou 2 segundos. Dependendo do gosto pessoal e do resultado obtido pode ser necessário efectuar várias tentativas até se atingir o objectivo. Neste campo as máquinas digitais são imbatíveis pela imediata possibilidade de se visualizarem as fotografias. Devem no entanto evitar-se utilizar as versões compactas e mais simples destes aparelhos pelo diminuto controlo da exposição que oferecem.
A escolha duma abertura pequena logo à partida tem a dupla vantagem de se conseguir uma boa profundidade de campo e, como tal, possibilitar a utilização da focagem manual (ou bloqueio da focagem automática) o que resulta mais prático nestas situações.
Quanto
ao flash, se for utilizado, devê-lo-á ser apenas como intensificador de cor e de
forma do motivo, congelando-o em determinado momento. Há que utilizá-lo em modo
de sincronização à cortina traseira (se bem que o termo não faça muito sentido
com algumas máquinas digitais que só possuem obturador electrónico). Neste modo
de sincronização (seleccionado na máquina e não no flash), garante-se que este
só disparará imediatamente antes do fim da exposição. Consegue-se assim que todo
o movimento do motivo anterior a esse instante não receba luz, ficando reduzido
a uma sombra arrastada, atrás do motivo, que se expressa como um simples rasto e
que vai acentuar ainda mais a sensação de movimento. Talvez a maneira mais
simples de controlar a sua luz seja no modo manual (através do seu Número Guia)
de modo a iluminar mais ou menos levemente o motivo. Caso só se possua controlo
TTL então à que compensar a exposição entre -0,5EV e -1EV, dependendo do efeito
do motivo e da área ocupada por este.
Só a nossa imaginação é que limitará as experiências que se podem fazer neste campo. Uma coisa é certa: seja qual for o resultado, este será sem dúvida surpreendente e de certa forma libertador dos dogmas, regras e padrões da fotografia convencional. Boas Fotos!