OS GRANDES CARDUMES
Texto e fotografia: Rui Guerra
Fotografar grandes cardumes de peixe constitui uma das
experiências mais gratificantes para o fotógrafo subaquático. Quer pela
experiência de mergulho em si, quer pela sensação proporcionada pelo
facto de sermos aceites no seio de uma outra espécie. Estar-se junto
duma grande massa viva com centenas ou milhares de indivíduos será
sempre um dos pontos altos da nossa vida como mergulhadores, fotógrafos
ou simples seres humanos.

Mas, onde é que se pode encontrar um cardume compacto de peixe? Basicamente, é possível ter encontros destes um pouco por todo lado, tendo-se em conta que um cardume compacto tanto pode ser de peixe-rei, de tainhas ou de grandes atuns. Desde as baías abrigadas de Sesimbra, passando pelas pontas e zonas expostas de Sagres, Cabo Espichel ou Berlengas, até às baixas oceânicas, ilhas isoladas ou mar aberto, todos são potências locais de encontro com grandes cardumes. O que varia essencialmente é a espécie e a frequência com que nos deparamos com estas formações. Geralmente, quanto maior a corrente e mais expostos forem os locais, maiores serão os habitantes a povoá-los, essencialmente como território de caça de espécies mais pequenas, as quais por sua vez também terão tendência a agregar-se em compactos cardumes como medida de protecção. O extremo desta situação encontra-se em mar aberto onde a única protecção possível é utilizar o indivíduo mais próximo como escudo vivo: dá-se assim origem a enormes e compactas bolas de peixe, que giram e movem-se em aparente sincronismo, o qual deriva simplesmente do pânico individual de cada peixe imitado pelo seguinte. Do caos nasce a ordem! Observar os predadores a tentar desmembrar esta ordem para caçarem mais facilmente os indivíduos é uma experiência fantástica e plena de adrenalina.
Apesar de se poder aproveitar a proximidade do cardume para fotografar
indivíduos isoladamente, é preferível concentrarmos a nossa atenção e os
nossos esforços na captação de imagens que retratem mais fielmente este
comportamento gregário. Basicamente há duas abordagens possíveis, que
serão escolhidas segundo o material que temos no momento, e segundo os
nossos objectivos.
Uma das hipóteses consiste em fotografar pequenas secções do cardume de modo a mostrar as faces dos diversos indivíduos, fazendo parte dum conjunto maior. A ideia de que o cardume é muito maior do que o retratado é dada pelo facto de, na foto, não aparecerem nenhuns sinais dos limites do cardume, deixando assim espaço para a imaginação do observador. Claro que o cardume pode até ter apenas mais meia-dúzia de indivíduos mas a ideia da enorme interdependência de cada um em relação aos outros, fica sempre bem patente.
As
objectivas a considerar para este tipo de imagem podem ser quaisquer
umas, mas a preferência irá para as de distância focal média a longa,
digamos, entre 35 e 90 mm, em termos do formato 24x36mm. Torna-se assim
mais fácil seleccionar uma zona do cardume particularmente compacta e
interessante, dando-se uma especial ênfase aos indivíduos em si. Deve-se
utilizar uma velocidade de obturação relativamente elevada, caso só se
esteja a fotografar com luz ambiente, para evitar os riscos de se obter
um efeito de “arrastamento”. Este efeito pode no entanto ser exactamente
aquilo que fará toda a diferença entre mais uma vulgar foto de cardume e
algo completamente diferente...
Na composição da imagem deve-se tentar colocar os diversos indivíduos numa orientação diagonal, a qual resulta particularmente dinâmica nestes casos.
Para a iluminação, um flash torna-se quase sempre indispensável tanto para realçar as cores como para ajudar a congelar o movimento. Mesmo com pouca luz ambiente e uma velocidade de obturação lenta, o disparo do flash, pela sua curta duração, será o suficiente para quase que garantir que os olhos dos peixes fiquem nítidos.
O tipo de flash a utilizar não necessita de ser de grande
angular pois apenas estamos interessados numa pequena parte do cardume.
De qualquer modo e dependendo da distância ao cardume, a temperatura de
cor dum flash de grande angular deverá produzir resultados mais
agradáveis. Quanto ao modo de utilização do mesmo, o TTL poderá dar bons
resultados na condição de se afastar bem o flash da objectiva para
evitar o intenso reflexo dos peixes prateados. Se não se quiser correr
riscos e se a nossa destreza técnica o permitir, a opção pelo controlo
manual do flash será sempre mais fiável.
A outra hipótese para fotografar cardumes consiste na tentativa de se apanhar toda a formação numa só imagem, dando assim a noção da sua forma e dimensão. Claro está que se deve dar prioridade às objectivas de grande angular e super-grande angular (ângulos de 90 a 180º). Quanto maior for o ângulo e mais próximo nos conseguirmos aproximar, maior será o impacto da imagem. Idealmente deve-se fotografar segundo um ângulo bastante contra-picado (em direcção à superfície) para que a luz solar proporcione a separação necessária à sensação de tridimensionalidade tão característica deste tipo de imagens.
No caso das objectivas fisheye, cujos ângulos atingem os 180º
na diagonal, será vantajoso utilizarem-se dois flashes de grande ângulo,
para uma melhor distribuição da luz por todo o cardume.
Qualquer que seja o método utilizado há um factor que por si só pode fazer toda a diferença: a composição de imagem, ou seja, a maior ou menor harmonia com que o cardume ou parte dele é fotografado. O momento do disparo é crucial e deve ser bem ponderado, mas sem hesitações. Por outras palavras: deve-se esperar que o cardume se reordene ou que assuma uma forma interessante. E é então que nesse momento e não antes se deve disparar, sem hesitações. Há que manter o olho pregado ao visor até chegar o instante certo. Uma precipitação pode dar origem a que os peixes se assustem com o clarão dos flashes e se afastem irremediavelmente. Se não for esse o caso, há que manter a persistência e a paciência pois de nada adianta estar-se a gastar filme ou baterias do flash desnecessariamente. Aqui cabe um aparte para apontar o dedo às máquinas compactas digitais: apesar de cada vez menos, apresentam quase sempre um atraso significativo entre o momento em que se prime o botão e o disparo na realidade. Isto não facilita em nada a tarefa do fotógrafo!

Paciência, ponderação e sentido estético são as armas a utilizar na fotografia de grandes cardumes. Boas Fotos!