Um pouco de bricolage
Texto e fotografia: Rui Guerra
Chegado o fim do Verão e os dias mais frios e chuvosos, chega também a altura de muitos fotógrafos irem cada vez menos à água, quer pelo mau tempo, quer pela água substancialmente mais fria que começa a entrar. Apesar de ser durante o Inverno que se encontram as melhores visibilidades e os mergulhos mais memoráveis, o simples facto de não se possuir um fato seco é muitas vezes desencorajador. Seja qual for o motivo, é natural que o maior intervalo entre saídas seja aproveitado de algum modo em prol da fotografia subaquática. Neste espírito, há quem aproveite a época para renovar equipamento, há quem se dedique a hiberná-lo cuidadosamente e há quem passe mais tempo a olhar para ele, naquela prateleira do armário, à espera de melhores dias. É também a altura apropriada para se efectuarem umas melhorias no equipamento, recorrendo a um pouco de bricolage caseira, que o tornarão mais funcional, mais seguro ou simplesmente mais cómodo de utilizar.
Comecemos
pelos flashes. A primeira preocupação a ter será a de os proteger de pancadas
involuntárias, especialmente aqueles cuja caixa seja de alumínio, para evitar
posteriores problemas de corrosão. No caso dos flashes cujo exterior seja de
material plástico, não existirão problemas de corrosão, embora uma pancada mais
forte possa provocar uma fissura ou, simplesmente, fazer um risco profundo no
plástico. A maneira como vulgarmente se protegem os flashes é através dum
invólucro em neoprene (3 a 5mm de espessura) feito à medida e com um modo
simples de pôr e tirar. A razão para que exista alguma espécie de fecho (velcro,
p.ex.) que permita retirar a protecção de forma simples (sem recorrer ao
desmontar do suporte do braço ou desligar o cabo de sincronismo) prende-se com a
necessidade de lavar (imergir) todo o equipamento em água doce sem desligar
nenhum cabo e antes de abrir a caixa ou desmontar objectivas. Caso não se
retirasse as protecções de neoprene haveria o risco de ocorrer acumulações de
sal debaixo do neoprene, com consequências óbvias. Se não se tiver o jeito ou
paciência para fazer uma protecção, pode-se utilizar um pedaço duma manga ou
duma perna dum fato velho de neoprene.
Relativamente à luz emitida
pelo flash, pode ser desejável torná-la mais difusa de modo a suavizar um pouco
as sombras, tornando-a menos “dura”, em especial no caso dos flashes projectados
para macro. O material a utilizar deverá ser resistente e semi-translúcido, tipo
branco opalino. Utilizando então um pedaço de acrílico de 3mm de espessura (que
é barato, fácil de trabalhar e existe em milhentas cores, tons e opacidades),
coloca-se o flash de topo sobre o acrílico para marcar a circunferência a toda a
volta. Corta-se com um pequeno serrote de ferro e far-se-ão dois pequenos furos
(2-3mm) diametralmente opostos. Utilizando dois pequenos comprimentos de
elástico marítimo (também conhecido por cabo de vela) da menor espessura (1,5 ou
2mm) e uma pequena secção de câmara-de-ar de diâmetro apropriado (facilmente
obtida nas casas de pneus) conseguiremos fazer uma fixação que permitirá colocar
e retirar o difusor rapidamente durante o mergulho. Para isso o anel de
câmara-de-ar deverá também ser perfurado em dois locais diametralmente opostos
de modo a passar por eles as extremidades dos elásticos nas quais se farão uns
nós para evitar que se escape dos furos. Durante o mergulho bastará colocar o
difusor à frente do flash ou na posição de “descanso” para um dos lados, que os
elásticos encarregar-se-ão do o manter na posição desejada. De notar que este
difusor terá o efeito secundário de alterar um pouco a temperatura de cor da luz
emitida e de também reduzir o Número Guia efectivo. Há que fazer algumas
experiências para escolher o acrílico mais apropriado para o flash que temos.

Pelo contrário, quando se pretende utilizar um flash de grande angular para macro, pode ser conveniente “arrefecer” um pouco a sua luz, tornando-a mais fria, e mais próxima da temperatura de cor da luz do dia. Recorrendo de novo ao acrílico de 3mm, mas desta vez transparente de tom azulado, procederemos do mesmo modo para fazer a fixação. Também se pode comprar um filtro de cor apropriada numa casa de fotografia e cortá-lo. Dependendo do flash utilizado pode ser no entanto necessário resolver um problema. É que alguns modelos de flash possuem o seu vidro frontal curvo mais sobressaído que o rebordo, impedindo assim que o nosso filtro azul assente bem. Pode-se comprar um pequeno prato plástico que é utilizado para colocar sob os vasos para plantas em casa ao qual se cortará o fundo que será substituído pelo filtro. Ou seja, do prato apenas aproveitaremos a altura lateral para superar aquilo que o vidro do flash sobressair em relação ao seu rebordo (o mesmo efeito pode ser conseguido utilizando uma secção de tubo PVC utilizado em canalizações com o diâmetro apropriado. Tal como no caso anterior a escolha do acrílico (ou filtro) mais eficaz deverá ser feita com base em testes com o nosso equipamento.
Ainda em relação ao flash, o
cabo de sincronismo, sendo um dos pontos mais frágeis do sistema, merece também
um pouco do nosso tempo. Nas lojas de bricolage ou de ferramentas há um tipo de
fita isoladora sem cola, designada por auto-vulcanizadora, a qual tem a
particularidade de aderir sobre ela própria ao ser esticada. É vulgarmente
utilizada para reparar mangueiras ou outros tubos de rega. Com ela será fácil
fazer uma protecção dos cabos junto às fichas (caso estes não possuam já alguma)
evitando assim a sua dobragem excessiva e repetida que a médio prazo conduzirá à
ruptura de um ou mais dos finíssimos fios condutores internos. Adicionalmente
ficará também mais protegido contar qualquer puxão que inadvertidamente ocorra.

Centrando agora as nossas atenções na caixa estanque, a primeira coisa que devemos pensar é no modo de evitar que ela escorregue para o chão se estiver em cima duma mesa ou dum banco num barco. Para isso basta revestira a base da caixa com borracha, que ajudará também a protegê-la no seu uso quotidiano quando se pousa no chão ou quando a assentamos numa pedra para tirar uma foto com uma velocidade mais lenta. A solução mais simples e fácil é comprar borracha autocolante que se vende nas casas de borrachas e plásticos, sob a forma de fita com 5 cm de largura. Se quisermos uma solução mais duradoura (e talvez definitiva demais…) teremos que utilizar cola de contacto e uma qualquer espécie de borracha fina industrial.
Ainda pensando na protecção
do equipamento mas desta vez para não o perder durante o mergulho, há duas
correntes opostas de pensamento. Uma delas diz que se deve prender o equipamento
ao colete através de um troço de elástico grosso ou de um acessório próprio que
utiliza um fio tipo telefone para permitir uma maior liberdade de movimentos sem
o soltar. A ideia é que em qualquer altura que se necessite das mãos podemos
largá-lo sem receio de o perder. A outra maneira de pensar defende que qualquer
coisa presa a nós pode-se tornar numa fonte de acidentes ou dificultar
gravemente a assistência de, ou a, alguém. Basicamente diz que mais vale
perder-se o equipamento que uma vida. Pessoalmente, compreendendo ambas as
razões, utilizo uma solução intermédia que tem algumas vantagens, no meu ponto
de vista. Utilizo um pedaço de cabo fino de 6mm de espessura e preso a ambos os
lados da caixa estanque, formando assim uma espécie de alça curta. Nesse cabo
enfiei um mosquetão que corre livremente ao longo do cordelete. A propósito do
mosquetão, deve ser sempre usado um do tipo dos usados em mergulho técnico (tipo
dos das trelas dos cães, com destrocedor) e nunca um de escalada. Isto porque
estes últimos podem-se fixar inadvertidamente em fios ou redes de pesca e também
porque se podem abrir através duma torção do cabo (quem faz trabalhos verticais
pendurado em cabos sabe bem do risco que é utilizar estes mosquetões sem nenhum
tipo de fecho adicional de segurança…). A parte traseira do mosquetão pode ser
revestida com a fita auto-vulcanizadora para amortecer algum eventual choque com
a caixa estanque protegendo esta última. Elaborado que está o sistema de fixação
resta dizer que só costumo utilizá-lo nas subidas, descidas e durante as
natações à superfície. Durante o mergulho propriamente dito tenho o equipamento
solto, seguro apenas com a mão. Se necessário bastam uns segundos para o prender
de forma segura a um D-ring do colete. Uma vez aí preso, posso rodar o
equipamento ou tombá-lo para um dos lados uma vez que o mosquetão está livre de
correr ao longo do cabo. Enquanto fotografo, o mosquetão pendurado mantém o cabo
esticado e evita que este se coloque entre o visor e a máquina.

Um
outro tipo de segurança em
que
vale a pena pensar é
na do equipamento como um todo. Isto é, todo o sistema de caixa estanque
com flashes deve ser
solidário e ter um ponto óbvio por onde se segure. Isto porque quando entramos
na água e pedimos a alguém no barco que nos passe o equipamento, não
queremos que lhe pegue por um cabo de sincronismo ou de modo a que um flash mais
solto rode e bata violentamente no chão ou na amurada do barco. Todos os grampos
do braço devem ser apertados firmemente e podem ser auxiliados por um anel de
elástico grosso que impedirá o braço de abrir se um dos grampos for desapertado
por acaso. Quando se utilizam dois flashes os respectivos braços podem ser
colocados de modo a que um mosquetão duplo a unir ambos sirva simultaneamente de
pega.
Por
último, mas não menos importante, é a protecção física da janela óptica da
caixa. Se bem que riscos ligeiros tendam a tornar-se invisíveis debaixo de água,
uma pancada mais forte pode inclusive partir o frontal. Deve-se assim fazer uma
protecção simples em neoprene ou utilizando uma tampa de plástico ou um prato
dum vaso de modo a ser fácil pôr e tirar durante o mergulho. Esta protecção só
será retirada durante a fase do mergulho em que estejamos a fotografar,
permanecendo colocada durante a descida, subida e durante todo o tempo à
superfície e a bordo. Se já existir uma protecção de origem basta pensar no modo
de a guardar durante o mergulho (bolso do colete, p.ex). Uma solução bastante
simples é pendurá-la através dum mosquetão a um D-ring lateral ou traseiro do
colete. Mesmo uma tampa de plástico pode ser pendurada deste modo se lhe
fizermos um pequeno furo através do qual se fixará uma pequena laçada de
elástico.
Muitas outras soluções caseiras para um grande número de pequenos problemas poderiam ser abordadas neste artigo, mas estes são os essenciais e quase indispensáveis para todo o fotógrafo subaquático, independentemente do seu nível ou do equipamento que utilize. Boas Fotos!